MMA de Natal vive drama após dois assassinatos e clama por justiça

Por Natal

Manhã de segunda-feira, dia 10 de fevereiro. O lutador de MMA Luiz de França conversava tranquilamente com amigos na calçada da academia Alta Performance, onde dava aulas, no conjunto Cidade Satélite, zona Sul de Natal. Dois homens numa moto se aproximam do local. Um deles, que estava de capacete e vestia bermuda preta e moletom verde, dá um tiro em Luiz. Na sequência, desce da moto e efetua mais nove disparos.

Noite de terça-feira, dia 11 de fevereiro. O também lutador de MMA Guilherme “Kioto” Matos toma açaí sozinho e tranquilamente em uma lanchonete em Nova Parnamirim, na Grande Natal. Surge um homem com calça escura, camisa de mangas compridas escura e uma toca ninja. O homem se aproxima, dá de sete a nove tiros em Guilherme – a Polícia está no aguardo do laudo pericial para confirmar a quantidade de disparos – e foge com o apoio de um carro preto.

Luiz de França e Guilherme Kioto MMA (Foto: Reprodução)
Luiz de França (E) e Guilherme Kioto foram assassinados em Natal (Foto: Reprodução)

Os dois crimes ocorreram um dia após o outro, resultaram em morte do alvejado e abalaram a capital do Rio Grande do Norte, principalmente a comunidade das lutas. Mais de um mês depois, às vésperas da realização do UFC Fight Night no Combate: Shogun x Henderson 2, neste domingo em Natal, os casos ainda não foram solucionados e ninguém foi preso, mas as investigações vão evoluindo e dando esperança de justiça aos familiares e amigos dos mortos. O caso que está mais próximo de um desfecho é o de Luiz de França, que tinha 25 anos e era atleta da equipe Kimura / Nova União, a mesma de Renan Barão, campeão peso-galo do UFC.

Em breve teremos um desfecho favorável à sociedade. Iranildo, para mim, nunca foi suspeito. Ele sempre foi o acusado, mas eu estava juntando as provas. Suspeito é quando acham que foi. Eu tenho certeza”
Delegado Sílvio, do caso Luiz de França

– A investigação está bem adiantada, em sigilo, com investigações camufladas. Estamos esperando alguns laudos, mas estamos bem adiantados. Já identificamos o policial militar, o primeiro-tenente Iranildo Félix de Souza. Desde o começo, quando eu fui lá e vi o corpo, eu tive a certeza que tinha sido o Iranildo, porque o próprio capitão da corporação, o Juscelino, disse em alto e bom som, após saber que havia sido um tenente da Polícia Militar que havia feito os disparos: “Ave Maria, foi Iranildo, que está afastado, que matou Luiz de França!”. Nós começamos a coletar as provas, mas que foi ele eu não tenho dúvida nenhuma. Estão faltando alguns laudos e também imagens de câmeras de segurança da região que nós solicitamos, mas já juntamos a perícia e algumas contradições. O capitão Juscelino mentiu. Ele disse no dia que o Iranildo havia matado, mas depois, em depoimento, ele negou ter dito. Mas juntamos muita gente que participou da conversa que confirmou que ele havia dito realmente que ele havia matado o Luiz de França – disse o titular da 11ª DP, o delegado Sílvio Fernando, em entrevista ao Combate.com.

De acordo com o delegado, Iranildo foi expulso da academia por Luiz de França, o que teria motivado uma vingança. Ele conta que Luiz dava aulas técnicas, mais voltadas para mulheres que queriam perder peso, enquanto Iranildo queria mais violência. O acusado chegou a desafiar outro professor da academia, que comunicou o fato a Luiz de França. Este, por sua vez, devolveu o dinheiro da mensalidade a Iranildo e o expulsou como ato de disciplina.

MMA Caso de Polícia (Foto: Rodrigo Malinverni)
Delegado Sílvio Fernando, que está à frente do
caso Luiz de França (Foto: Rodrigo Malinverni)

– Em breve teremos um desfecho favorável à sociedade. Iranildo, para mim, nunca foi suspeito. Ele sempre foi o acusado, mas eu estava juntando as provas. Suspeito é quando acham que foi. Eu tenho certeza. O Iranildo é inteligente, formado em Direito, aprovado em biomedicina e medicina na Universidade Federal e pós-graduação em perícia criminal. Mas está usando a inteligência dele em outro sentido. Não tem antecedentes e é elogiado por todos os policiais. Mas ele mesmo disse em depoimento que tem problemas mentais. Recentemente estava afastado e agora pegou mais 300 dias por renovação da licença médica. Aparentemente é um cara tranquilo, mas ele é perigoso, porque todo psicopata é perigoso – afirmou Sílvio Fernando.

O acusado chegou a dizer que tinha um álibi para se livrar da situação, mas se enrolou na hora das explicações e se complicou com os fatos:

– O Iranildo disse que foi para a academia às 8h05m. A identificação biométrica, por impressão digital na entrada da academia, mostra que ele entrou 10h08m, 2h03m depois. Errar o horário em 10 ou 15 minutos é possível, mas mais de duas horas, não. Ele disse que treinou duas horas, mas está registrado que ele treinou 32 minutos. Fez uma série rápida depois do fato acontecido, que foi 9h45m. De onde ele estava, do local do crime, para a academia, a distância é de 2km. Em três minutos se chega lá. Se foi ele, deu tempo de sobra – disse Sílvio.

Sem dúvida a gente ficou muito triste. É uma ferida que não vai cicatrizar nunca”
Renan Barão, campeão do UFC

Amigos e parceiros de treino de Luiz de França mostraram muita tristeza ao falar do lutador e pediram justiça:

– Não gosto nem de falar nesse assunto, na realidade. Sem dúvida a gente ficou muito triste. É uma ferida que não vai cicatrizar nunca. O Luiz de França era um irmãozão da gente, estava sempre dando apoio e nos ajudando – disse Renan Barão.

– O Guilherme eu conhecia, fico muito triste. E o Luiz de França era meu irmãozão. O que tenho a pedir é justiça aos órgãos públicos. Que não fique impune assim como tantos outros crimes que acontecem no nosso país. Que a verdade venha à tona e que o cara que fez isso pague caro. Perdemos não só um grande atleta, mas uma grande pessoa. Os órgãos públicos têm que abrir o olho quanto a isso – complementou o peso-médio Ronny Markes.

A hipótese de os dois crimes estarem interligados é completamente descartada pelo delegado encarregado do caso Luiz de França. Mas o titular da 2ª DP de Parnamirim, o delegado Frank Albuquerque, ainda trabalha com essa possibilidade. O caso de Guilherme “Kioto”, que tinha 30 anos e treinava na Pitbull Brothers, equipe dos irmãos Patricio e Patricky Pitbull, está mais em aberto, segundo Albuquerque:

– Nós temos três linhas de investigação, três suspeitos. Um deles é o assassino. Sabe-se que o assassino era alto e forte, do estilo do lutador. Ele tinha um porte físico bom, forte. Parecia que malhava, no mínimo. Acreditamos ainda que possa ter sido um crime passional, pois todos os disparos atingiram a região da cintura para baixo, bem próximo da regiao genital. É possível que ele tenha se virado quando foi atingido e um tiro pegou nas costas. O normal quando um assassino quer matar a vítima é apontar para a o coração e para a cabeça. Parece que a intenção era impedí-lo de ter relações sexuais, ou deixá-lo aleijado, já que havia tiros na base da coluna cervical. O ITEP (Instituto Técnico-Científico de Polícia) está com problemas e está vindo para Natal uma equipe de peritos da Força Nacional de Segurança para ajudar a executar essses laudos. O pessoal do ITEP ficará fazendo trabalho interno e quem vem de fora vai fazer as perícias externas.

MMA Caso de Polícia (Foto: Rodrigo Malinverni)
Lanchonete onde Guilherme Kioto foi assassinado (Foto: Rodrigo Malinverni)

Uma das possibilidades no caso de Guilherme tem a ver com um episódio ocorrido em 2013. Na companhia do lutador Anistávio Gasparzinho, que participou do primeiro The Ultimate Fighter Brasil, Kioto se envolveu numa briga em uma casa noturna de Natal. Segundo o delegado, Gasparzinho iria ser agredido por um empresário com uma garrafa de whisky na cabeça, por trás, e Guilherme impediu que a agressão acontecesse.

– Não se pode dizer se essa briga não teve a ver com a morte, porque a vingança é um prato que se come frio. Não tem como afirmar que, por ter acontecido há algum tempo, essa briga não tenha nada a ver com o assassinato.

MMA Caso de Polícia (Foto: Rodrigo Malinverni)Delegado Frank Albuquerque está investigando o
caso Guilherme Kioto (Foto: Rodrigo Malinverni)

Outro detalhe importante é que na lanchonete, o local do crime, há câmeras de vídeo, e uma delas estava abaixada no momento dos tiros.

– Ela mostraria exatamente o local em que o Guilherme foi morto. Talvez isso também tenha sido premeditado na lanchonete, pelo assassino ou por algum funcionário. O dono da lanchonete disse que talvez tenha sido alguém que tenha tentado roubar. Mas quem quer roubar leva ou quebra, e não abaixa – disse Frank Albuquerque.

No caso de Guilherme, conta contra ele e abre uma outra vertente o fato de já ter se envolvido com coisas erradas. Segundo o delegado, o lutador foi preso por roubo de carros há cerca de sete anos, mas teria parado com essas atividades desde que saiu da cadeia. Guilherme ficou por lá durante cerca de um mês somente.

Um dos atletas que está no card do UFC em Natal, Fábio Maldonado chegou à cidade há um mês, pouco depois das mortes, e pôde sentir o ambiente:

Acho que isso é um reflexo da política mal governamentada”
Rony Jason, lutador do UFC

– Dá medo, né? A gente não pode fazer nada. Fiquei triste pelo que aconteceu. Um dos garotos era daqui (da Pitbull Brothers). Não só aqui, mas fico triste com a violência no mundo inteiro. É uma pena. Espero que os lutadores não se metam nessa. Mesmo que não ficar rico com o esporte vai conseguir ter uma academia, se dar bem, porque a faculdade nossa é essa. É poder passar para os alunos.

Já Rony Jason, que treinava com Guilherme, coloca a culpa nas autoridades e conta que amigos próximos e parentes ficaram preocupados com ele após os dois episódios:

– Acho que isso é um reflexo da política mal governamentada. Não sei a fundo os motivos que levaram a essas duas mortes. O Guilherme era um cara que estava crescendo. É complicado. Muita gente fala para eu ter cuidado, que estão matando lutadores no Rio Grande do Norte, mas sou um cara muito tranquilo e pacato. Mal saio de casa. Quando saio, vou a uma festinha e volto para casa tranquilo. Mas morrem pessoas toda hora. Foi coincidência terem sido dois lutadores. Foi fatalidade.

MMA Caso de Polícia (Foto: Rodrigo Malinverni)Câmera que estava abaixada na hora do crime:
investigaçãoem curso (Foto: Rodrigo Malinverni)

Para piorar a situação do principal suspeito de ter matado Luiz de França, houve outro assassinato seis dias depois. Iranildo disse ter sofrido um atentado, levou um tiro na barriga e que usava colete no momento. Mas a ex-mulher dele, que estava junto, levou quatro tiros na cabeça, sendo um na nuca, e morreu.

– Ele vai ter que contar essa história e a perícia vai dizer como foi, porque termina sobrando para ele novamente. É estranho ele ser o alvo de um atentado e sofrer só um tiro de raspão na barriga, e ela, que não tinha nada com isso, levar quatro tiros na cabeça. Ele contou que estava levando a ex-mulher para que ela soubesse onde ele estava se escondendo, por medo dos atentados e ameaças que vinha sofrendo, para que ela levasse a criança deles para ele ver. Não havia vestígio nenhum de sangue no carro, como se os tiros tivessem acontecido fora do carro. Essa é mais uma história que ele vai ter que esclarecer, e a perícia vai dar um laudo – afirmou o delegado Sílvio Fernando.

O treinador Jair Lourenço, que recebeu o Combate.com em sua academia, falou emocionado sobre Luiz de França e contou que haverá homenagem a ele no UFC deste domingo, no Ginásio Nélio Dias:

Nós temos três linhas de investigação, três suspeitos. Um deles é o assassino”
Delegado Frank, do caso Guilherme Kioto

– O assassinato do França foi um dos maiores baques que eu levei na minha vida. Natal é uma cidade ótima, mas tem muito isso de assassinato. Já perdi muitos atletas assim. Na minha academia e em outras aconteceu muito. Aqui se mata muito fácil. A lei deixa a desejar. Tiraram um dos nossos filhos. Ele tinha uma condição financeira muito boa, e a família não gostava muito do esporte, mas mesmo assim ele treinava enquanto fazia faculdade e dava aula para ganhar o dinheiro dele. Foi assassinado no local de trabalho, dando aula em uma filial nossa e foi morto brutalmente pelas costas, na covardia. Já existe um suspeito, e as investigações estão andando bem. Vamos aguardar e colocar tudo nas mãos de Deus e da Justiça. Faremos uma homenagem a ele no UFC, mas é uma surpresa. Eu dou aula de vez em quando com a camisa dele. O França mora no meu coração mesmo. O que me deixa mais triste é ele ter ido e eu não ter podido dizer a ele o que eu sentia por ele. Uma vez eu vi uma mãe dizendo para que nós sempre disséssemos aos nossos filhos o quanto nós os amamos, porque você não sabe o que vai acontecer amanhã. E acabou acontecendo comigo, ele morreu e eu não pude dizer a ele o quanto eu o amava.

Enquanto Natal aguarda os próximos capítulos e um final digno para ambas as mortes, o Ultimate vai ajustando os últimos detalhes para o “UFC: Shogun x Henderson 2”, que será realizado na cidade neste domingo, a partir das 17h (de Brasília). O canal Combate transmite o evento ao vivo, e o Combate.com acompanha tudo em Tempo Real.

UFC Fight Night no Combate: Shogun x Henderson 2
23 de março de 2014, em Natal
CARD PRINCIPAL
Peso-meio-pesado: Maurício Shogun x Dan Henderson
Peso-médio: Cezar Mutante x CB Dollaway
Peso-leve: Léo Santos x Norman Parke
Peso-meio-pesado: Fábio Maldonado x Gian Villante
Peso-leve: Michel Trator x Mairbek Taisumov
Peso-pena: Rony Jason x Steven Siler
CARD PRELIMINAR
Peso-pena: Diego Brandão x Will Chope
Peso-médio: Ronny Markes x Thiago Marreta
Peso-mosca: Jussier Formiga x Scott Jorgensen
Peso-meio-médio: Thiago Bodão x Kenny Robertson
Peso-pena: Godofredo Pepey x Noad Lahat
Peso-meio-pesado: Francimar Bodão x Hans Stringer

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