Caso de sucesso, judô brasileiro se consolida como referência para 2016

Auge da carreira de qualquer atleta, uma medalha olímpica é apenas a “ponta do iceberg” de um processo longo e contínuo, que depende de investimento e planejamento para obter um êxito duradouro. Com essa filosofia, a Confederação Brasileira de Judô (CBJ) colocou o Brasil na briga por uma vaga permanente na elite da arte marcial surgida no Japão.

Dentro e fora do tatame, o judô se tornou um dos carros-chefes do esporte brasileiro em competições internacionais na última década, e já desponta como esperança de medalhas nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. A partir desta segunda feira, a cidade também se torna palco para o Campeonato Mundial de Judô, que será disputado no ginásio do Maracanãzinho até o próximo domingo.

Com uma ampla lista de patrocinadores e um orçamento anual de R$ 30 milhões, a CBJ conseguiu ampliar sua estrutura física, reforçar o quadro de funcionários e membros da comissão técnica, e também aumentar a assiduidade de atletas brasileiros em eventos internacionais. No ano passado, os judocas da seleção principal fizeram 52 viagens, contra apenas quatro em 2001. Os brasileiros marcaram presença em 17 torneios (quatro internacionais), contra seis no início da década passada. A oportunidade de competir com mais frequência também se refletiu na quantidade de títulos e vitórias.

O Brasil conquistou nove medalhas olímpicas entre Atenas 2004 e Londres 2012 – uma de ouro e oito de bronze. Em três ciclos olímpicos, o país quase repetiu a quantidade de pódios acumulados de Munique 1972 a Sydney 2000 – no período de 28 anos, o judô brasileiro somou 10 medalhas: dois ouros, três pratas e cinco bronzes. Nos Mundiais adultos, a evolução é ainda mais expressiva: são 18 medalhas (quatro ouros, cinco pratas e nove bronzes) vencidas entre 2003 e 2011, contra 10 (duas pratas e oito bronzes) no intervalo de 1971 a 1999.

INFO números judô 3 (Foto: arte esporte)
Fonte: CBJ

O salto considerável no desempenho do judô brasileiro foi possível graças à reorganização na gestão do esporte. Paulo Wanderley Teixeira, presidente da CBJ, ressalta que os títulos mundiais e a preparação para as Olimpíadas continuaram sendo tratados com prioridade, mas houve também a valorização da base e o investimento em estrutura, para que a modalidade não se tornasse dependente apenas de talento individual ou mesmo “sorte” para alcançar essas conquistas.

– O principal foco permanece nos Jogos Olímpicos, e todo o trabalho que realizamos a cada ciclo tem como objetivo a conquista de medalhas. Mas este é um processo circular: as medalhas trazem resultados, que atraem patrocinadores. Se estes recursos forem bem aplicados, conseguimos melhorar nossa estrutura, e então desenvolver atletas mais competitivos, que consequentemente terão mais chances de chegar ao pódio olímpico. É tudo questão de planejar no longo prazo, sem se esquecer do momento atual – explicou o presidente da CBJ.

Mosaico RECONHECIMENTO MUNDIAL Judô brasileiro (Foto: Editoria de Arte)

Com o judô brasileiro se sobressaindo no cenário internacional, a modalidade já se firmou como peça-chave no ambicioso plano do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) para 2016. Em casa, a entidade almeja alcançar o tão sonhado top 10 do quadro geral de medalhas, com um salto considerável em relação a Londres 2012, quando o Brasil ficou com a 22ª colocação do ranking.

– O judô se encaixa num grupo de modalidades que consideramos “vitais” para alcançarmos nossas metas. Ações de suporte para atletas e treinadores, como pagamento de viagens, intercâmbios, contratação e capacitação de treinadores, suporte na área de Ciências do Esporte, entre outras, estão sendo colocadas em prática no dia a dia para desenvolver ainda mais a modalidade. É um dos nossos carros-chefes para 2016. Os resultados demonstram isso – destacou o diretor executivo de Esportes do COB, Marcus Vinicius Freire.

Os expressivos resultados obtidos pelos judocas brasileiros na última década, especialmente na campanha recordista dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, com um ouro e três bronzes, são decorrentes de uma “reforma política” que fez da CBJ um modelo de referência para outras confederações desportivas do Brasil. A maioria das entidades que administram o esporte brasileiro ainda enfrenta dificuldade para consolidar uma base forte e investir em estrutura de treinamento.

INFO números judô 1 (Foto: arte esporte)
Fonte: CBJ

– A Confederação Brasileira de Judô é atualmente uma das mais estruturadas confederações olímpicas do país e serve de modelo para as demais. Além dos resultados esportivos, a CBJ tem vários patrocinadores e boa administração. Para o COB, uma gestão profissional é essencial para o sucesso esportivo de uma modalidade – reconheceu o diretor executivo Marcus Vinicius Freire.

A estratégia de Paulo Wanderley Teixeira, que preside a CBJ desde 2001, é desenvolver os talentos que despontam como promessas, mas sem colocar a preparação dos atletas que já conquistaram notoriedade em segundo plano. Os judocas brasileiros que disputam campeonatos profissionais de âmbito internacional conseguem trazer resultados mais imediatos, que atraem a iniciativa privada. As grandes empresas se interessam principalmente pelos lutadores consagrados, mas a CBJ destina os recursos de editais e leis de incentivo estatais para a base, como forma de compensar essa disparidade.

info eventos e viagens  - vertical - judô (Foto: arte esporte)Fonte: CBJ

– Antes, essa atenção às equipes de base, do sub-18 e do sub-21 definitivamente não existia. Voltamos a atenção para a base porque a evolução é incompleta sem ela. Tivemos vários exemplos de esportes que se mantiveram no topo por um tempo, mas depois entraram em declínio quando o astro daquela modalidade se aposentou. Hoje temos exemplos como o do Victor Penalber, que saiu do sub-21 e agora é o número 1 do ranking mundial da categoria meio-médio. A gente faz questão de colocar a base em contato com os adultos. Em Londres, a gente levou atletas mais novos para que eles pudessem acompanhar o processo e já irem se preparando para 2016. Isso é fundamental – disse Paulo Wanderley.

Para o ex-judoca João Derly, bicampeão mundial da categoria meio-leve, o investimento na base foi fundamental para perpetuar a boa fase do judô brasileiro. O gaúcho, que se tornou o primeiro brasileiro a conquistar um ouro no Mundial da categoria principal, no Cairo, em 2005, repetindo o feito dois anos depois, no Rio de Janeiro, ressaltou a importância de fomentar o esporte a partir de uma base sólida.

– Estamos num processo de evolução, principalmente na parte de investimento. Isso é uma conquista. Antes, tínhamos grandes dificuldades. Tínhamos que viajar fazendo pacote e procurar outras formas de pagar as viagens. Hoje você vê equipes de base viajando pela Confederação. Temos que ter um cuidado especial com a base – destacou o ex-judoca.

A notoriedade obtida pelos judocas brasileiros nos tatames internacionais desencadeou o surgimento de novos ídolos do esporte, que experimentaram uma popularidade semelhante à de Aurélio Miguel e Rogério Sampaio, donos de medalhas de ouro em Seul 1988 e Barcelona 1992, respectivamente. João Derly, Tiago Camilo, Mayra Aguiar, Leandro Guilheiro e Leandro Cunha, entre tantos outros lutadores de renome nacional e internacional, reacenderam o interesse pela arte marcial, que andava em baixa após os resultados irregulares que dominaram o cenário esportivo do final dos anos 1990.

INFO números judô 5 (Foto: arte esporte)
Fonte: CBJ

O auge veio com a piauiense Sarah Menezes, que conquistou o ouro da categoria ligeiro em Londres 2012 – o primeiro do judô brasileiro entre as mulheres. De posse da primeira medalha do Brasil na modalidade em 20 anos, Sarah se transformou no principal ícone da nova geração dos tatames, e provou que o país tem potencial para vislumbrar um lugar definitivo entre os gigantes. A próxima meta é garantir um ouro feminino no Mundial do Rio – único título que permanece inédito para o judô brasileiro.

– O Mundial desse ano vai ser um parâmetro para que possamos avaliar o nosso trabalho rumo a 2016. Os resultados vão nos dizer onde estamos acertando, e também os aspectos que precisamos mudar. A grande ambição é conquistar um ouro no feminino, para derrubar o último título que a gente ainda não tem. Nosso retrospecto recente nos dá uma perspectiva muito positiva. O Japão ainda é a grande estrela do judô mundial, mas estamos em busca de resultados excepcionas para cravar nossa marca entre as maiores potências – avaliou Paulo Wanderley Teixeira.

Paulo Wanderley Teixeira, presidente da Confederação Brasileira judô desembarque londres 2012 olimpiadas (Foto: Rodrigo Faber/ Globoesporte.com)
Paulo Wanderley preside a Confederação Brasileira de Judô desde 2001 (Rodrigo Faber/Globoesporte.com)

A ex-judoca Rosicleia Campos, atual técnica da seleção brasileira feminina, exalta o trabalho de reestruturação do judô na última década, e acredita no potencial do país para se destacar no quadro de medalhas do Mundial.

info comissões e núcleos  - vertical - judô (Foto: arte esporte)
Fonte: CBJ

– Sempre tivemos um celeiro de ótimos atletas, talentos, mas sem estrutura você não consegue nada. Hoje, o judô é completamente estruturado, tem uma equipe multidisciplinar, desde o psicólogo ao preparador físico, e não falta nada para os atletas. Isso é fundamental para o esporte crescer. O atleta vai lá e luta, mas ele não luta sozinho. Ele ganha muito com essa estrutura. Hoje, o Brasil entra numa competição e, se não voltar com resultados, aí sim é uma surpresa – afirmou a técnica da seleção feminina.

Para João Derly, o atual cenário do judô brasileiro também aponta para a “descentralização” do esporte, a partir da criação de mecanismos que permitem seu desenvolvimento em todas as regiões do país. Apesar disso, o bicampeão mundial alerta para a necessidade de destinar mais investimentos na preparação dos atletas. O Centro de Excelência e Treinamento Pan-Americano de Judô, que deve ser inaugurado até 2014 em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador (BA), é o primeiro passo em direção a esse objetivo.

– Outra coisa importante foi a nacionalização do judô. A Sarah, que é do Piauí, é campeã olímpica. A CBJ descentralizou o judô nacional. Isso é uma grande vitória. Temos atletas surgindo em várias partes do país. Já temos uma condição melhor, mas ainda temos que evoluir. Não podemos nos contentar. Precisamos canalizar melhor o orçamento da equipe, ter o centro de treinamento, que já está saindo. Um local fixo. Estamos caminhando para isso – opinou o ex-judoca.

Além de conquistar o primeiro ouro feminino, a delegação brasileira tentará subir ao pódio do Mundial do Rio pelo menos seis vezes, para superar o resultado obtido na edição de 2011, disputada em Paris, quando ficou com duas pratas e três bronzes. O país estará representado por 18 judocas, incluindo os medalhistas olímpicos Felipe Kitadai, Rafael Silva, Ketleyn Quadros, Sarah Menezes e Mayra Aguiar. Veja a programação completa.

Mayra Aguiar no estúdio do SporTV em Londres (Foto: Thiago Lavinas/SporTV.com)
No Mundial do Rio, Mayra Aguiar é esperança de ouro na categoria meio-pesado (Thiago Lavinas/SporTV.com)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.