Paixão e inclusão social

Por Wladmir Paulino
Do NE10

O Estado, como instituição que administra uma nação, estava pouco se importando para quem não era abastado no início do século XX. Pretos e pobres eram vistos quase como bárbaros, que precisavam ser ‘domesticados’ para então se integrarem à sociedade. Em contrapartida à atual e sempre presente inclusão social, o termo da época pode ser muito bem apontado como exclusão social. E esse apartheid tinha no futebol um dos maiores exemplos. Foi nesse contexto que nasceu o Santa Cruz Foot-Ball Club que, sem o saber, faria o papel de pai de todos. O Alvinegro e depois Tricolor não olhava para o bolso, cor da pele nem profissão de ninguém. Abraçou quem quis segui-lo. Um abraço que perdura por gerações, ajudou a construir seu patrimônio e o trouxe de volta à superfície quando o naufrágio era líquido e certo.

Foto: Guga Matos/JC Imagem

Nas primeiras décadas do século passado, o futebol chegou ao Brasil com um cunho pedagógico inimaginável hoje em tempos de salários estratosféricos e arenas multimilionárias. “Só poderia ser praticado por quem tivesse uma elevação espiritual, alguém que tivesse dinheiro e um alto nível de educação”, diz o doutor em história e professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) Tiago Melo. Esse era o ideal compartilhado por Náutico, Sport e América, aqueles considerados grandes clubes nas três primeiras décadas. “Só podia jogar quem era sócio do clube”.

Tiago Lembra que os menos favorecidos moravam em mocambos, com baixa expectativa de vida e elevados índices de mortalidade infantil. Secretaria de Direitos Humanos, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Previdência Social, Bolsa-Família, Organização não-Governamenal… Nada disso sequer era pensado quanto mais executado. “O Estado não dava assistência alguma. O Santa Cruz abriu espaço para a participação dessas pessoas”, explica

No Santa, qualquer um era aceito. “O Santa Cruz nasceu sem ter nenhuma pretensão de exclusividade, nunca foi fechado a nada. Sempre teve negros, pobres, ricos, brancos, gente de todo tipo desde o começo. Sempre foi aberto”, lembra Tiago. Claro que, em tempos de preconceito escancarado inclusive dentro da própria imprensa, isso teria um custo. O do Tricolor foi ter sua torcida solenemente ignorada. A cobertura de um jogo de futebol não parecia nem um pouco com as descrições de jogadas e análises de posicionamento. Quem estava na arquibancada era tão ou até mais importante do que quem estava nos 105x70m. Quase uma coluna social esportiva. Quando as brigas estouravam – e não eram poucas, incluindo invasões de campo -, apareciam as ‘maltas de vagabundos’. Se os protagonistas fossem rubro-negros, alvirrubros ou alviverdes, eram ‘lamentáveis incidentes’.

Obviamente não foi apenas nesse primeiro momento que o Santa arrebatou o povão. Toda a história do clube convergiu para isso e a consolidação desse casamento veio com a construção do Arruda, num primeiro momento erguido com os braços e o suor de sua torcida. “Um estádio enorme, na Zona Norte da cidade. Quando a torcida lota um Arruda num jogo de Série D, não está apenas indo a um jogo de futebol. Também quer dizer: o povão está aqui”. Por isso o historiador entende a resistência que os corais – do Conselho Deliberativo ao usuário do Todos Com a Nota – em jogar na Arena Pernambuco. “O Santa jogar na Arena não faz nenhum sentido; é como se estivesse abrindo mão de tudo que representa”, aponta.

O também professor de história Eduardo Lima estudou a história do futebol no Recife até o profissionalismo na dissertação de mestradoRecife entra em Campo: História Social do Futebol no Recife (1905-1937). Ele lembra que não há como comprovar que o Santa Cruz foi fundado por gente pobre como algumas lendas que se formaram em torno do clube, mas o pensamento não-exclusivista com certeza foi o estopim para atrair gente mais humilde. Num primeiro momento, o clube era menor que Sport, Náutico ou América e o fato de receber quem simpatizasse com sua causa é uma das explicações para não haver sucumbido como tantos outros que encerraram atividades a partir da década de 1940 quando o profissionalismo foi consolidado. “Dentre os quatro (Santa, Sport, Náutico e América), com certeza ele era o menor. O fato de ser mais aberto é uma das explicações para ele ter sobrevivido. O clube tinha uma abertura bem maior que os outros”, avalia.

Foto: Ricardo B. Labastier/JC Imagem

Essa abertura era simplesmente pelo próprio espírito do clube, que seria o único no Estado com essa história de vida. Além dos já citados elitistas, as outras equipes que integravam a lista de equipes eram clubes de bairro como o Torre e o Varzeano ou representantes de empresas, caso do Tramways. Até porque, segundo ele, dinheiro havia no clube, embora não haja relato de mensalidade, já que não era uma agremiação social como os outros pares. “O Santa sempre participou do Campeonato Pernambucano e os clubes pagavam para participar e não eram custos baratos”, relata.

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