homicídio doloso

Suspeitos de matar torcedor serão indiciados por homicídio doloso

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Um dia após prender os três suspeitos de envolvimento com a morte do torcedor Paulo Ricardo Gomes da Silva, 26 anos, atingido por um vaso sanitário no entorno do estádio do Arruda, no Recife, a cúpula da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco confirmou que eles vão responder por homicídio doloso (quando há intenção de matar) com agravante de o crime ter ocorrido por motivo fútil e da vítima não ter tido chance de defesa.

Segundo a Polícia Civil, eles também serão indiciados por três tentativas de homicídio (outros três torcedores atingidos pela privada ficaram feridos na ação). A delegada Gleide Ângelo, responsável pela investigação, terá oito dias, a partir desta sexta-feira, para concluir o inquérito. Se condenados, eles podem pegar até 30 anos de reclusão. As informações foram confirmadas numa entrevista coletiva na tarde desta sexta, na Secretaria de Defesa Social (SDS), em Santo Amaro, na área central da capital.

coletiva secretaria defesa social morte torcedor arruda (Foto: Victor Tavares)
Cúpula da Secretaria de Defesa Social detalha crime que matou torcedor no Arruda (Foto: Vitor Tavares)

Segundo Gleide Ângela, os três suspeitos – Luiz Cabral de Araújo Neto, 30 anos; Everton Filipe Santana, 23; e Waldir Pessoa Firmo Júnior, 34 anos – tiveram a prisão preventiva decretada pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). Em depoimento, eles contaram que integravam a torcida organizada do Santa Cruz, a Inferno Coral, e que na torcida do time visitante, tinham oito torcedores do Paraná e 200 da organizada do Sport, a Torcida Jovem.

Ela acrescentou que quem teve a ideia de jogar os vasos foi Luiz Cabral, que queria vingar-se de torcedores do Sport. Ele acompanhou o jogo entre Santa Cruz e Portuguesa (no estádio do Canindé, em São Paulo) e, depois, veio direto para o Recife para assistir à partida entre o time tricolor e o Paraná, no Arruda.

– No dia do jogo, ele disse que entrou no estádio do Arruda pela beira-canal. Quando estava nos acréscimos, ele disse que o jogo estava muito ruim e decidiu sair do campo. Quando estava do lado de fora, viu uma briga na Avenida Beberibe. A PM foi apartar e deteve um integrante da Inferno Coral, chamado Dinho, que é um dos dirigentes. Nesse momento, todos os integrantes da Inferno enlouqueceram pra tentar soltar Dinho, que acabou sendo levado para uma delegacia dentro do estádio. Luiz Cabral, então, teve a ideia de entrar no estádio, subir para o anel intermediário, procurar pedras e jogar na torcida do Sport – explicou Gleide Ângelo.

coletiva secretaria defesa social morte torcedor arruda (Foto: Victor Tavares)
Delegada revela que intenção era atingir torcedores do Sport (Foto: Vitor Tavares)

Ainda conforme a delegada, Cabral convidou os outros dois suspeitos, que toparam e seguiram para o anel intermediário do estádio. Lá, eles arrancaram os vasos e atiraram do anel superior do Arruda.

– Eles ficaram escondidos. Quando todos os torcedores saíram, eles foram procurar pedras, mas não encontraram. Quando estavam no anel intermediário, viram o banheiro e tiveram a ideia de pegar os vasos sanitários. Cabral deu chutes nas privadas e Ewerton puxou as bacias. Eles foram para a parte do estádio virada para a Rua das Moças e viram que estava tendo outra briga. Nessa confusão, os torcedores da Jovem começaram a correr e eles perceberam quer iam passam embaixo de onde eles jogaram as privadas. Eles ficaram esperando a Torcida Jovem passar e então arremessaram os objetos. Ewerton teria ajudado a retirar as privadas e Cabral e Waldir as jogaram na direção dos torcedores.

A Polícia Civil ainda informou que Luiz Cabral, que é de Olinda, mudou-se para o Rio Grande do Norte há nove anos após passar em um concurso de agente de saúde. Ele morava na cidade de Passa e Fica, no interior potiguar, e foi detido no município de Monte das Gameleiras.

– Toda vez que ele vinha ao Recife, ficava hospedado na sede da Inferno Coral – destacou Gleide Ângelo.

 Como é que a pessoa vai jogar um vaso e não matar? Foi um crime bárbaro, cruel e covarde
Gleide Ângelo

Morador de Olinda, Ewerton foi pego após informações repassadas ao Disque-Denúncia Pernambuco. Já Waldir decidiu se entregar após ser convencido pela mãe.

– Ele queria apagar as imagens do clube, onde eles aparecem. Foi o primeiro identificado, fugiu para Maceió. A mãe o convenceu a voltar – relatou a delegada.

 Os policiais também conseguiram as imagens que mostram os suspeitos entrando e saindo do estádio pelo portão 11. A testemunha-chave, que ajudou a esclarecer as investigações, foi um vendedor de picolé que ainda estava no estádio quando acabou o jogo e os viu deixar o campo juntos.

– Eles já se conheciam. Disseram em depoimento que não sabia que haviam matado uma pessoa. Só ficaram sabendo ao chegar em casa e escutar em uma rádio. Mas isso foi um crime bárbaro, cruel e covarde. Como é que a pessoa vai jogar um vaso e não matar? A intenção de quem joga é matar. Também estamos estudando indiciá-los por outros crimes – concluiu a delegada.

Após prestarem depoimento na sede do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), eles foram encaminhados à sede do Centro de Triagem (Cotel), em Abreu e Lima, onde ficarão à disposição da Justiça.

presos morte torcedor arruda (Foto: Aldo Carneiro / Pernambuco Press)
Everton, Luiz Cabral e Waldir podem pegar até 30 anos de prisão (Foto: Aldo Carneiro / Pernambuco Press)

Entenda o caso

Na última sexta-feira, Paulo Ricardo Gomes faleceu depois da partida entre Santa Cruz e Paraná, pela Série B do Campeonato Brasileiro. Quando passava próximo ao portão 6 do Arruda, destinado à torcida visitante, ele foi atingido por um vaso sanitário jogado da parte superior da arquibancada. Além dele, outras três pessoas foram feridas, mas estão fora de perigo.

Integrante da maior torcida uniformizada do Sport, ele saiu de casa com uma missão: tirar fotos da uniformizada do Paraná – uma prática comum entre torcidas aliadas em diferentes estados. Na câmera encontrada pelos bombeiros dentro da bolsa da vítima, havia vários registros do jogo.

Por conta do ocorrido, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) interditou preventivamente o estádio do Arruda, obrigando o Santa Cruz a atuar nas duas próximas partidas nos Aflitos e com os portões fechados.

Tentando atenuar a pena, o Tricolor colaborou com as investigações e disponibilizou as imagens das 16 câmeras internas do estádio para a polícia. Ação que fez o coronel Flávio Bione, diretor de segurança do Santa Cruz, ser ameaçado de morte.

Mas foi através do Disque-Denúncia que a polícia chegou ao primeiro envolvido. Everton Felipe foi preso na última segunda-feira na frente de uma escola onde trabalhava, no bairro de Ouro Preto, Olinda. Integrante da maior organizada do Santa Cruz, ele responde a processo na Justiça por porte de arma e já havia se envolvido em uma briga generalizada, no dia 6 de fevereiro, quando a equipe coral enfrentou o CRB, no estádio Rei Pelé, em Maceió, em 2013, pela Copa do Nordeste. A confusão fez o clube ser punido por três jogos de suspensão.

Na tarde desta quinta-feira, Luiz Cabral de Araújo Neto, segundo suspeito de participar da morte do torcedor foi preso na cidade de Monte das Gameleiras, no interior do Rio Grande do Norte, e confessou ter atirado um dos vasos. À noite, o terceiro envolvido, Waldir Pessoa Firmo Junior, se entregou na sede do DHPP e também confessou o crime.