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Ariano Suassuna deixa paixão pelo Sport como marca de sua trajetória

Ariano Suassuna tinha uma relação de amor com o Sport (Foto: Aldo Carneiro / Pernambuco Press) Por 

Um dos maiores romances de Ariano Suassuna foi vivido, não escrito. A morte do escritor e dramaturgo, aos 87 anos, põe fim a uma relação de amor que brotou ainda na infância, no início dos anos 30, e o acompanhou pela vida inteira. O Sport Club do Recife foi parte importante da vida do paraibano.

Ariano deu entrada no Hospital Português às 20h desta segunda-feira e passou por uma cirurgia depois de sofrer uma hemorragia cerebral, mas não resistiu e faleceu nesta quarta-feira. A saúde estava debilitada desde agosto de 2013, quando foi vítima de infarto e, posteriormente, aneurisma cerebral.

Nascido em João Pessoa, mudou-se para o Recife dez anos depois, em 1937. Na capital pernambucana, incentivado pelo irmão Marcos, jogador de basquete do Sport, alimentou ainda mais o sentimento de torcedor nutrido desde menino, no sertão da Paraíba.  Nos últimos tempos, costumava aparecer vestido com o tradicional traje vermelho e preto, batizado pelo próprio de “Sport Fino”.

Ariano fazia questão de destacar a importância do clube em sua vida. E não aceitava que alguém colocasse o Sport em segundo plano.

– Discordo de quem disse que dentre as coisas menos importantes da vida, a mais importante é o futebol. O Sport, para mim, é – e sempre foi – uma das coisas mais importantes na minha vida – relatou o escritor, em conversa com o GloboEsporte.com, em 2012.

Frequentador assíduo da Ilha do Retiro, Suassuna guardava duas vitórias sobre o Corinthians como as mais marcantes na trajetória pessoal como torcedor. A primeira, no dia em que subiu o alambrado, na década de 50, para comemorar um triunfo por 2 a 1, em um amistoso contra o Timão. A segunda, e mais emblemática, foi final da Copa do Brasil, em 2008. Enquanto Corinthians e Sport se preparavam para a decisão da partida, cerca de 35 mil pessoas ovacionaram o escritor que, emocionado, chegou a comparar aquele dia ao do lançamento de uma de suas obras mais conhecidas, o Auto da Compadecida.

– Quando o primeiro tempo acabou em 2 a 0, foi aí que tive mais medo ainda, mas depois fomos tomados por uma alegria incrível. Fui direto para casa, mas confesso que demorei muito a dormir, tomado pela emoção, que foi semelhante ao lançamento do “Auto da compadecida”, em 25 de janeiro de 1957, no Rio de Janeiro. Na ocasião, todas as peças que nos antecederam foram vaiadas, mas nós fomos aplaudidos, aclamados pelo público. Senti o mesmo que uma vitória do meu Sport – disse o escritor, em entrevista ao GloboEsporte.com, em 2012.

Sempre bem-humorado, Ariano não perdia a oportunidade de provocar os rivais. O escritor gostava de brincar com os torcedores de Náutico e Santa Cruz.

– Sou rubro-negro dos pés à cabeça. Brancos só os cabelos, que já estão caindo – chegou a afirmar.

Tanta devoção fez o clube eternizar a ligação com o dono da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, ao lançar, em 2013, uniforme inspirado no Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna com o objetivo de disseminar a arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste Brasileiro. Convidado para o evento de lançamento, o poeta foi tratado como um pop-star pelos torcedores e relembrou uma das suas célebres frases sobre a relação com o Sport: “Felicidade é torcer pelo Sport”.

Dias antes do evento, Ariano Suassuna, que ganhou notoriedade por seus romances, como “O Auto da Compadecida”, “Uma Mulher  Vestida de Sol” e “Fernando e Isaura”, deixou uma mensagem.

– Agora, estando ou não no estádio eu estarei presente em espírito, através da camisa do Sport.

Sport prepara homenagem

Abalado com a morte do escritor, o presidente do Sport, João Humberto Martorelli, decretou luto oficial de três dias e disse que o clube fará uma homenagem especial para aquele que, segundo mandatário rubro-negro, foi um dos mais representativos torcedores do Leão da Ilha.

– Lamentamos muito o falecimento de Ariano, que sempre levou o nome do Sport por onde andou. Está decretado luto oficial e estamos preparando algo para homenageá-lo. Logicamente faremos algo no próximo jogo (contra o Paysandu, quarta-feira), mas isso não basta. Pela representatividade que ele tinha, temos que fazer algo especial, que mostre a importância dele para o Sport.